O nonagenário que se tornou o rei das ruas de Aracaju

17/09/2026


Por Andréa Moura

Aracaju, a capital do menor estado do Brasil, não é uma monarquia, mas possui um rei coroado: Fiel Martins de Souza, o rei das ruas. Aos 91 anos de idade - isso mesmo, ele nasceu em novembro de 1934, Seu Fiel, como é carinhosamente chamado, é um dos corredores de rua mais antigos, conhecidos e queridos da cidade, esbanjando não apenas simpatia, mas vitalidade, vigor, condicionamento físico e rapidez nos treinos, e em todas as provas das quais participa. Para manter o ritmo, durante a semana percorre cerca de 100 quilômetros nos treinos, média de três, feitos na maior parte das vezes no período da tarde, e com o sol do sempre verão nordestino lhe servindo como companhia.

“Corro desde moleque, na base de uns sete anos de idade. Na Semana da Pátria, por exemplo, ia correndo buscar a bandeira de Londrina a Cornélio Procópio, no Paraná, o que dá cerca de 64 quilômetros. Mas me desafiando, participando de competições, comecei quando tinha uns 14 anos de idade, e de lá para cá não parei mais”, afirmou sorridente. E a prova de que são muitos os anos de corrida está dentro da casa de seu Fiel, que é repleta de medalhas e troféus espalhadas por todos os cômodos, com exceção do banheiro.

Seu Fiel após corrida. Foto: Arthur Soares

Nascido em Sergipe, ele conta que ainda pequenino perdeu a mãe, e o pai casou-se com outra mulher, uma boa mulher, segundo ele, e isso o fez acompanhar o pai e a madrasta para outros estados do país. Ele lembra ter morado no interior de São Paulo e no Paraná, e aos 20 anos retornou a Sergipe, onde casou e constituiu família. O sorriso do rosto desaparece momentaneamente ao falar dos dois filhos do casal e já falecidos, um com 11 anos de idade, e outro já homem feito.

Seu Fiel é um dos 8.364 sergipanos que possuem mais de 90 anos de idade, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas provavelmente, neste grupo, ele deve compor um percentual bem pequeno de longevos que possuem boa saúde física e mental. Seu Fiel não usa óculos, bengalas ou outro equipamento para o auxiliar na locomoção; faz as atividades domésticas junto com a esposa, e mais ainda nos últimos meses, após ela, com 85 anos de idade, começar a apresentar dor em uma das pernas e pés.

Ele também possui uma excelente memória, trazendo para o presente algumas situações vividas no passado, como as corridas que fez em diversos estados brasileiros; as travessias a nado do Paraná até o Mato Grosso ou Paraguai; as corridas como jóquei em Santa Catarina; e os trabalhos que desenvolveu ao longo da vida. O segredo da longevidade? Para ele, praticar esportes, estar com o corpo acordado através da atividade física. “Ainda bem que você me perguntou o segredo da longevidade, e não de eu ter chegado até os 91 anos, porque eu ia ter que te responder: é não ter morrido antes”, comentou aos risos.

E ainda falando sobre os possíveis segredos para uma vida longeva, ele disse não ter muito. A alimentação é à base de feijão, arroz, legumes, proteína e frutas; não faz uso de bebidas alcóolicas; não fuma; dorme bem, embora o horário seja o menos regrado possível. “Ah, não tenho um horário certo de ir para a cama, nem de acordar. Às vezes durmo meia noite e me levanto sete, oito da manhã”, afirmou. Para completar o tempo, gosta de ler e de escrever poesias, anedotas e contos.

Correndo e fazendo amigos

Mas, talvez, um dos combustíveis essenciais à “máquina” de Seu Fiel seja a felicidade que afirma adquirir através da corrida de rua. Há cerca de duas décadas ele faz parte de uma equipe de corrida, a Pé no Chão, cujo lema é “correndo e fazendo amigos”. “Amo correr, e todas as corridas que fiz na vida foram boas. Fiz e faço amigos em cada uma delas, a gente encontra pessoas boas, ganha abraços, sorrisos. A corrida me ensinou a ter felicidade, é gostoso estar com a molecada, acho importante essa socialização, e por isso incentivo qualquer um a amar o esporte”, declarou.

Seu Fiel e amigos de corrida. Foto: Arthur Soares

E mesmo amando todas as corridas que já fez, ele não esconde que a preferida, a que faz transbordando de alegria, é a Corrida Cidade de Aracaju, que para muitos é um desafio extremo. A corrida acontece anualmente em homenagem ao aniversário da capital sergipana, celebrado em 17 de março, com largada no centro histórico de São Cristóvão, a primeira capital do estado, até a praça Fausto Cardoso, em Aracaju. O percurso total é de 24 quilômetros. É uma das mais importantes corridas de rua do país, e considerada uma das mais difíceis também, por combinar forte calor, alta umidade e trecos com ladeiras bem desafiadoras.

“O bom atleta é aquele que corre no sol quente e na sombra verde descansa; na subida se controla e se joga na descida”, comentou o corredor. Quando questionado se tem planos para o futuro, ele diz sonhar chegar aos 100 anos. E velho, será que ele se acha? “Não, me acho um moleque, com muita vida pela frente. E no dia que a morte me cercar, e quiser me levar, vou dizer a ela, se possível leve outro e me deixe”, falou aos risos. E para os mais jovens ele deixa um conselho. “Larguem de preguiça, arranque os parafusos da bunda e vamos correr”, motivou.

O exemplo que incentiva

Toda a conversa com Seu Fiel foi acompanhada pelo pedagogo Josenilson Felizardo dos Santos, 56 anos de idade, que também faz parte da Equipe Pé no Chão, há cerca de 20 anos. Para ele, Seu Fiel é um exemplo para milhares de pessoas, e possivelmente um ideal que não deverá ser alcançado por muitos. “Seu Fiel não tem comparação, eu mesmo ainda não conheço ninguém que tenha chegado quase aos 92 anos, e que faz uma maratona sorrindo como ele consegue. A corrida de São Cristóvão a Aracaju deste ano, enquanto muitos chegavam debilitados, Seu Fiel chegou sorridente. No dia a dia dele, sai da Zona Norte e vai até a Atalaia, até a Aruana, faz cerca de 30 quilômetros sozinho, vai e volta tranquilamente. Ele é inexplicável”, reforçou Josenilson dos Santos.

Professor Josenilson tem Seu Fiel como inspiração. Foto: Andréa Moura

Professor da Educação Infantil, Josenilson dos Santos afirma que ter incluído o esporte na rotina dele, mais especificamente a corrida de rua, foi um casamento muito importante para que iniciasse uma jornada de autocuidado visando uma vida longeva e saudável. Outro ponto forte da equipe da qual ele faz parte, e que o motiva diariamente, é a presença de outros corredores com idade acima de 70 anos com um rendimento muito bom nas corridas, e consequentemente, na vida.

“A Equipe Pé no Chão me ensina muito, todos os dias. Não corremos para ganhar dinheiro, corremos para ganhar saúde, e isso não tem preço. E ver tantos idosos ativos no grupo faz a gente querer continuar. Já teve dias de eu pensar em desistir por causa da minha rotina de trabalho, que é muito grande, mas ao ver Seu Fiel e os outros idosos não tem como não mudar de ideia, ganhar um estímulo a mais e seguir”, confessou o pedagogo.

E pensando em um futuro melhor, o professor Josenilson afirma que o cotidiano dele, mesmo cheio de atribuições, abriu espaço para o autocuidado através do esporte, da boa alimentação, sono e estilo de vida regulados. “Enquanto tem gente que perde noite e chega em casa, da farra, às cinco da manhã, a gente está saindo às cinco para correr. Enquanto muitos estão, à noite, em uma mesa de bar, estamos nos programando para treinar, então, essa é a grande diferença, talvez o grande segredo seja este, não perder noite desnecessariamente e manter uma boa qualidade de vida”, opinou o professor corredor.

 

“Para me sentir viva”

 Dona Cacilda tem 86 anos e diariamente comercializa no mercado central de Aracaju

Quem também sai de casa todos os dias, não para correr, mas para socializar e “se sentir viva”, é a feirante Cacilda dos Santos, 86 anos de idade. Moradora do Rosa Elze, em São Cristóvão, na Região Metropolitana de Aracaju, ela sai de casa muito cedo, pega o táxi lotação e vai para o mercado central da capital, o Albano Franco, para abrir a banca onde vende ervas e frutas. Por volta da 16h encerra o expediente e segue até o terminal rodoviário para pegar o ônibus de volta para a residência, uma caminhada de quase dois quilômetros.

“Venho para cá porque não gosto de ficar em casa, minha filha, vou ficar fazendo o quê? Dormindo?”, questionou ela aos risos. Há cerca de 30 anos aquele é o seu local de trabalho, antes a necessidade era financeira, quando veio do povoado Mussuca, em Laranjeiras, para mais perto da capital. Foi na banca do mercado que ela conseguiu o sustento para criar os 15 filhos, 12 ainda vivos. Há alguns anos, o motivo da presença diária de dona Cacilda é a socialização, é pelo bem da saúde mental, como ela mesma afirma.

“Aqui vejo um, converso com outro, e assim o dia passa mais rápido. Quando chego em casa, é só comer, conversar um pouco com as filhas, ver TV e dormir. E continuarei vindo para cá até quando puder arrastar minhas pernas”, brincou.

 

O ser humano precisa de um corpo funcional,

e quando idoso, mais ainda

 

De acordo com o IBGE, com base nos dados obtidos no ano de 2024, Sergipe possui 48.635 pessoas com idade acima de 80 anos, o que representa 2,11% da população atual do estado. A projeção do Instituto para daqui a 20 anos, ou seja, para 2046, é de que haja 128.020 pessoas 80+ em Sergipe. E para chegar a esse marco temporal com qualidade de vida, alguns fatores serão fundamentais, como a prática regular de atividade física, boa saúde para o corpo e para a mente, boas relações afetivas e educação financeira para uma vida economicamente tranquila.

Tiago Plínio possui expertise em treinamento funcional para idosos. Foto: arquivo pessoal

O profissional de Educação Física e CEO do Studio TP, Tiago Plínio, que atua na área há 12 anos, destes, nove como personal trainer, afirma que envelhecer bem começa muito antes dos 80 anos, havendo a necessidade, muito antes de chegar à oitava década de vida, de manter o corpo ativo, o que ajuda a preservar força, equilíbrio, mobilidade e, principalmente, independência para realizar as atividades do dia a dia. Pós-graduado em Fisiologia do Exercício, desde o início da carreira ele tem muitos idosos como clientes, por isso acumula expertise em prescrição e acompanhamento de treinos para essa população.

“São exercícios voltados à força, mobilidade, autonomia e qualidade de vida, principalmente porque, com o passar dos anos, é comum o ser humano ter sarcopenia, que é a perda acentuada de massa muscular. Por esse motivo o treinamento de força, como a musculação, tem um papel tão importante, pois ajuda a pessoa idosa a continuar realizando movimentos simples, porém essenciais para o cotidiano, como caminhar, levantar-se da cadeira, subir escadas, enfim, manter a autonomia”, frisou Tiago Plínio.

Ele afirmou, ainda, que além da musculação, pessoas 80+ podem se beneficiar de atividades como caminhada, hidroginástica, natação, dança, bicicleta ergométrica, alongamentos e exercícios de mobilidade, equilíbrio e coordenação. “A escolha deve considerar as preferências, limitações e condições de saúde de cada pessoa”, observou o profissional.

Tiago Plínio explicou que, de modo geral, o recomendado é que o indivíduo faça, pelo menos, 150 minutos de atividade física moderada por semana, o que corresponderia a aproximadamente 30 minutos por dia, cinco vezes por semana, tempo que de acordo com Tiago Plínio, não precisa ser cumprido de uma só vez. “Ele pode ser dividido em períodos menores ao longo do dia. Para quem está começando ou apresenta alguma limitação, sessões mais curtas também são válidas, com progressão gradual”, enfatizou.

Trabalhar com o público 80+, de acordo com o profissional, requer ainda mais atenção e cuidado, por isso, a montagem do treino deve começar por uma avaliação individual que considere o estado de saúde, o histórico de quedas, a mobilidade apresentada e o nível de independência da pessoa.

“O treino pode começar com 5 a 10 minutos de aquecimento e mobilidade, seguido de exercícios de força que reproduzam movimentos do cotidiano, como sentar-se e levantar-se da cadeira, empurrar, puxar, subir pequenos degraus e fortalecer pernas, braços e tronco. Também devem ser incluídos exercícios de equilíbrio e coordenação, importantes para prevenir quedas, além de uma atividade aeróbica leve ou moderada, como caminhada ou bicicleta ergométrica”, citou Tiago Plínio.

O CEO do Studio TP comentou, ainda, que a musculação pode ser realizada duas ou três vezes por semana, enquanto caminhadas e outras atividades aeróbicas podem ser distribuídas ao longo dos demais dias. O mais importante, segundo ele, não é começar com treinos longos ou intensos, mas garantir regularidade, segurança e progressão gradual.

“Em pessoas com mais de 80 anos, cada exercício precisa ser adaptado às capacidades individuais e, sempre que possível, acompanhado por um profissional. E todo esse trabalho de construção de boa reserva muscular fará muita diferença, por exemplo, quando o idoso é acometido por doença ou precisa de internação hospitalar, pois ficar muitos dias parado pode fazer a pessoa idosa perder força rapidamente, e tornar a recuperação mais difícil. Por isso, cuidar dos músculos e manter o corpo em movimento não são apenas questão de estética, é uma forma de chegar à longevidade com mais autonomia, segurança e qualidade de vida.”, assegurou.

 

Longevidade também passa pela boca

 

Foto: banco de imagens da Internet

Não somente a prática da atividade física é considerada essencial para que o ser humano possa alcançar uma vida melhor e mais longeva. O que ele consome diariamente nas refeições, e entre elas, também deve ser analisado com cuidado. Então, pessoas que não se alimentam adequadamente não chegarão ou passarão dos 80 anos? Essa não é uma afirmação, até porque a vida não é puramente um cálculo matemático, como enfatiza a nutricionista clínica especializada em saúde da mulher, e com foco em perimenopausa e menopausa, Juliana Guimarães.

Segundo ela, claro que é possível pessoas que não tiveram uma alimentação considerada ideal ao longo da existência viverem muitos anos, porque a longevidade depende de diversos fatores, como genética, acesso à saúde, atividade física, uma boa qualidade do sono, o ambiente em que a pessoa está inserida, os vínculos sociais e fatores socioeconômicos.

“No entanto, é muito mais provável alguém viver 80, 90 ou 100 anos com autonomia, independência, e boa qualidade de vida quando a alimentação é equilibrada ao longo dos anos. Vários estudos já mostram que padrões alimentares ricos em frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas e proteínas de boa qualidade estão associados a um menor risco de doenças cardiovasculares, do surgimento do diabetes tipo 2, de alguns tipos de câncer, e do declínio cognitivo”, observou Juliana Guimarães.

Nutricionista Juliana Guimarães: consumir bons alimentos é fundamental para vida longeva

Mas, como ter uma alimentação equilibrada no Brasil, onde há grande desigualdade social, e no qual, muitas vezes, milhares de pessoas não conseguem ter a alimentação básica? Para Juliana Guimarães essa é uma das maiores questões de saúde pública do país, não podendo falar ou tratar a alimentação saudável apenas como uma escolha individual do cidadão, já que muitas pessoas enfrentam, no país, insegurança alimentar e dificuldade de acesso a alimento fresco.

“Até mesmo para quem consegue comprar alimentos, a vida corrida, a falta de tempo para cozinhar, preparar as próprias refeições, e as limitações financeiras são entraves graves, por isso promover longevidade exige política pública que garanta acesso à alimentação adequada, à educação alimentar e nutricional, saneamento básico, acesso à saúde e redução das desigualdades sociais, por isso não é justo que essa responsabilidade, de ter uma alimentação adequada, recaia exclusivamente sobre o indivíduo, porque vai muito além de uma vontade pessoal”, salientou a nutricionista.

Juliana Guimarães reforça que a alimentação tem papel fundamental na construção e manutenção ao longo da vida, pois não atua apenas na prevenção de doenças, ela fornece os nutrientes necessários para que nosso organismo funcione adequadamente, para que sejam preservadas massa óssea e muscular, saúde cardiovascular e intestinal, imunidade, disposição e saúde cerebral.

“Por isso, quando pensamos em longevidade, consumir bons alimentos se torna ainda mais importante, pois à medida em que envelhecemos, preservar músculos, força, mobilidade e capacidade funcional se torna tão importante quanto evitar doença, afinal, uma alimentação adequada associada à atividade física e a outros de hábitos de vida, pode ajudar a preservar essas capacidades e favorecer o envelhecimento com mais autonomia”, reforçou a nutricionista.

A profissional da saúde fez questão de desmistificar que alimentação saudável significa perfeição, pois não é. Ela deve ser, em primeiro lugar, possível, depois prazerosa, e sustentável ao longo do tempo, pois não adianta apenas viver por muitos anos, já que longevidade de verdade não é aumentar a quantidade de anos, mas aumentar a qualidade dos anos que ainda existirão.

 

O desafio é colocar mais vida nos anos

 

O aumento da expectativa de vida é uma das grandes conquistas das últimas décadas, mas trouxe um desafio que vai além de acrescentar anos à vida: é preciso garantir que esses anos sejam vividos com saúde, autonomia, mobilidade, independência e equilíbrio emocional. É nesse ponto que longevidade e envelhecimento se diferenciam. Envelhecer é um processo natural e inevitável. A longevidade, por sua vez, não significa simplesmente atingir uma idade avançada, mas viver mais e melhor, preservando qualidade de vida e capacidade de adaptação às transformações que acontecem ao longo do tempo.

Por isso, de acordo com a médica e diretoria da Bradesco Saúde, Dra. Thais Jorge, não existe uma idade única que, isoladamente, determine que alguém seja longevo, e segundo ela, a tão desejada longevidade é uma construção que começa muito antes da velhice, sendo resultado das escolhas, dos hábitos e das condições de vida acumuladas ao longo dos anos. Alimentação, atividade física, prevenção, saúde mental, vínculos sociais, ambiente e planejamento financeiro influenciam diretamente na maneira como cada pessoa chegará às idades mais avançadas.

Essa visão está na base do Indicador de Longevidade Pessoal (ILP) realizado pela Bradesco Seguros, que está estruturado em seis pilares: atitudes em relação à longevidade; saúde física; saúde mental; interações sociais e meio ambiente; cuidados de saúde e prevenção; e finanças. O ILP é uma pesquisa que busca compreender como os brasileiros se relacionam com a longevidade, e analisar essa fase da vida de maneira multidimensional, considerando aspectos físicos, mentais, sociais, emocionais e financeiros. Em 2025, o estudo ouviu 4.400 pessoas com mais de 18 anos, de todas as regiões do país.

Dra. Thais Jorge, diretora do Bradesco Saúde

“Os resultados ajudam a mostrar porque aumentar a expectativa de vida, por si só, não é suficiente. Existe ainda uma distância considerável entre a consciência dos brasileiros sobre a importância do autocuidado, e a incorporação efetiva de hábitos saudáveis ao cotidiano”, afirmou a executiva. Embora 74% dos entrevistados pratiquem alguma atividade física, apenas 36% mantêm uma rotina regular de quatro dias ou mais por semana. Na prevenção ocorre algo semelhante: 77% afirmaram buscar informações sobre exames e cuidados recomendados, mas 45% ainda procuram atendimento médico somente quando aparecem sintomas.

As mulheres aparecem mais engajadas em alguns desses comportamentos preventivos. Entre elas, 82% afirmaram buscar informações sobre exames e cuidados recomendados, e o grupo feminino também se destaca pela maior adesão a hábitos de prevenção. Esse comportamento é um componente importante quando se pensa na saúde ao longo da vida, embora a diferença de expectativa de vida entre homens e mulheres envolva diversos outros fatores.

A prevenção tem que começar na juventude

Outro desafio, de acordo com Thais Jorge, é fazer com que a prevenção comece cada vez mais cedo. Muitos dos principais desfechos físicos, mentais e funcionais que terão consequências nas décadas seguintes, começam a ser moldados antes dos 30 anos, período em que se consolidam hábitos e aumenta a autonomia individual, reforçando a necessidade de substituir, progressivamente, um modelo predominantemente reativo, que entra em ação apenas quando a doença já se manifestou por uma cultura de prevenção, promoção da saúde e acompanhamento contínuo ao longo da vida.

“Essa mudança ganha ainda mais importância diante da discussão sobre a quantidade de anos que uma pessoa pode viver com doenças, limitações ou perda de autonomia. O sucesso da longevidade não deve ser medido exclusivamente pela quantidade de anos vividos. O objetivo deve ser ampliar também o período de vida saudável. Quanto mais cedo forem identificados os fatores de risco e incorporados hábitos de prevenção, maiores serão as possibilidades de chegar às idades mais avançadas, preservando independência e capacidade funcional”, destacou a Dra. Thais Jorge.

Não é possível tratar o envelhecimento saudável apenas como consequência do comportamento de cada indivíduo. O próprio ILP inclui as interações sociais e o meio ambiente entre os pilares relacionados à longevidade.

Há, ainda, uma dimensão que muitas vezes recebe menos atenção nesse debate: a financeira. Mais da metade dos brasileiros, 55%, gasta acima da renda, e dois em cada três não possuem reserva para a aposentadoria. A segurança material é, portanto, parte importante das condições necessárias para uma longevidade com autonomia.

A diretora do Bradesco Saúde reforça que a longevidade não começa aos 60 anos, e que o cuidado com a saúde não pode estar concentrado apenas no tratar doenças depois que elas aparecem. “É necessário identificar riscos, estimular comportamentos saudáveis, acompanhar doenças crônicas e integrar os diferentes pontos de cuidado. O acompanhamento longitudinal permite olhar para a pessoa ao longo dos anos, e não somente para episódios isolados de doença”, explicou Thais Jorge.

O Brasil vive um processo acelerado de envelhecimento. Segundo o IBGE, quase 30% da população — mais de 66 milhões de pessoas — terá mais de 60 anos em 2050. O Censo de 2022 registrou quase 38 mil centenários no país, e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aponta que mais de 11 mil deles têm plano de saúde — número crescente para um grupo antes pouco expressivo. Esse cenário exige repensar o cuidado com a saúde e o modo como planejamos o futuro.

“O envelhecimento acelerado exige, portanto, uma mudança de perspectiva. A discussão deixa de ser simplesmente sobre quanto tempo viveremos, e passa a incluir como viveremos esses anos adicionais. Viver mais é uma conquista. Fazer com que esses anos sejam vividos com saúde, autonomia e qualidade de vida é um desafio permanente”, observou a Dra. Thais Jorge.

 

Longevidade: uma engrenagem

que move muitas peças

 

Foto: Banco de imagens da Internet

O envelhecimento populacional brasileiro é uma mudança demográfica com efeitos diretos sobre Previdência, mercado de trabalho e crescimento econômico. Segundo o IBGE, a participação da população com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023, e deve continuar crescendo nas próximas décadas. Para 2040, o país já estará em uma estrutura etária significativamente mais envelhecida, com 26% da população tendo mais de 60 anos, de fato. Portanto, um em cada quatro brasileiros será idoso.

Em Sergipe, a pedido do Pra Você Saber, o IBGE fez uma projeção do envelhecimento da população para os próximos 20 anos. Para se ter uma ideia, hoje, em 2026, o estado possui 6.655 idosos com 80 anos; em 2036 esse quantitativo será de 10.238; e em 2046, serão 16.069. Já a população com 90 anos, atualmente, é de 8.364 pessoas; em 2036 será de 14.209; e em 2046 chegará a 23.881 pessoas.

O economista Márcio Rocha afirma que o envelhecimento da população, nacionalmente, provocará um aumento da razão de dependência dos idosos, e redução relativa da população em idade ativa, movimento que resulta, principalmente, da combinação entre queda da fecundidade e aumento da expectativa de vida, elevando a pressão atuarial sobre sistemas previdenciários de repartição. Segundo ele, o impacto também será relevante no mercado de trabalho, já que em 2024, também de acordo com o IBGE, 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas.

A tendência, explica Márcio Rocha, é de maior permanência de trabalhadores longevos, seja por necessidade de renda, ou por decisão de permanecerem profissionalmente ativos. “Jornalistas, por exemplo, só param de trabalhar quando perdem capacidades ou morrem, vide a alta longevidade profissional da categoria. Já para as empresas, isso exigirá políticas de requalificação, flexibilidade laboral e aproveitamento da experiência; enquanto para os trabalhadores, a longevidade aumenta a importância de planejamento financeiro de longo prazo, combinando previdência pública, patrimônio e capacidade de geração de renda”, analisou.

Economista Márcio Rocha. Foto: arquivo pessoal

O economista afirmou que, em termos macroeconômicos, a redução relativa da força de trabalho torna produtividade, automação e qualificação, fatores ainda mais importantes para sustentar o crescimento. Todo esse movimento também afetará diretamente a previdência, que para Márcio Rocha, já apresenta necessidade de financiamento, e o envelhecimento populacional tende a ampliar essa pressão.

Ele observou que o sistema previdenciário brasileiro é predominantemente de repartição, e que as contribuições dos trabalhadores e empregadores em atividade não são suficientes, por si só, para cobrir todas as despesas previdenciárias. A diferença, explica o economista, precisa ser coberta pelo orçamento público, o que cria um custo fiscal permanente, e com a população envelhecendo, o problema tende a se intensificar: menos contribuintes proporcionalmente para financiar mais beneficiários durante períodos mais longos. Isso aumenta a necessidade de financiamento e reduz o espaço fiscal para outras políticas públicas.

“A Previdência Social já é uma conta que não se paga há tempos, pois a proporção ideal de ativos para inativos seria de 8x1, e hoje é de 2x1. A longevidade, portanto, não cria o déficit previdenciário, mas tende a agravá-lo se as regras e a estrutura de financiamento não acompanharem a mudança demográfica”, apontou. Márcio Rocha orienta que para uma “velhice” financeiramente saudável é preciso economizar, economizar e economizar. Guardar ao menos 10% da renda mensal para uma conta de investimento, que não seja a poupança, porque o dinheiro aplicado perde valor nominal anualmente.

“indico Fundos de investimento; CDBs com boas taxas de retorno do CDI; e letras do Tesouro Nacional, porque emprestar dinheiro para o governo é bom mesmo. E o segredo é fazer aportes sucessivos, mesmo que o valor seja pequeno, pois num prazo de 20 a 30 anos, para as pessoas mais jovens, e até mesmo em 10 anos, para mais idosos, a maior parte do montante final será gerada por juros, não pelo aplicado em si. E com uma boa quantia investida pode-se tirar o dinheiro mensal de sobrevivência como uma segunda aposentadoria”, orientou Márcio Rocha.

Educação financeira para a longevidade

O contador, bancário há mais de 20 anos, e instrutor de Educação Financeira certificado pela National Educators Council (NFEC), Marcelo Antonio da Silva, afirma que não é preciso ficar rico para envelhecer com tranquilidade financeira, mas sim, construir previsibilidade e autonomia. Segundo ele, um envelhecimento economicamente tranquilo deve começar muito antes da aposentadoria, e para isso, o primeiro passo é não tratar essa fase da vida como uma data que chegará algum dia, mas como alfo que precisará ser planejado.

“A orientação da educação financeira é simples: conhecer quanto entra e quanto sai, evitar dívidas que comprometam a renda futura, construir uma reserva de emergência, proteger-se contra imprevistos, e saber de onde virá a renda quando o trabalho deixar de ser a principal fonte. Então, a pergunta não é quando vou me aposentar, mas sim, de quanto vou precisar para viver durante os anos em que não terei o mesmo ritmo de trabalho. A melhor hora para começar a se preparar para o envelhecimento financeiro é antes de precisar dele. Em educação financeira isso não é prever o futuro, é aumentar nossa capacidade de lidar com ele”, explicou Marcelo Antonio.

Uma das preocupações que o trabalhador deve ter, ao chegar ao mercado de trabalho, segundo o especialista, é acumular mais capital, fazer investimentos, ampliar a capacidade de consumir e no andar da vida, ir acelerando mais o processo até chegar na etapa de manutenção desse capital, e de ir se preparando para a fase de usufruir dele, que é a aposentadoria. Marcelo Antonio explicou que depois dos 80 anos a prioridade da educação financeira muda, e o objetivo deixa de ser acumular dinheiro, e passa a ser administrar bem os recursos para preservar a segurança, a autonomia, e a qualidade de vida.

Marcelo Antonio é especialista em Educação Financeira

“Então, é importante saber exatamente quanto entra e quanto sai, conhecer a renda mensal, separar as despesas essenciais das que podem ser reduzidas, e manter um controle simples do orçamento. Isso é tão importante, porque metade dos aposentados já usou o crédito para pagar contas essenciais, porque essas contas estavam desalinhadas com a renda”, contou o especialista.

Um aspecto extremamente importante, segundo Marcelo Antonio, é não deixar que as ajudas a filhos ou netos comprometam a aposentadoria com dívidas que não cabem no orçamento. O cuidado deve ser redobrado, principalmente para não colocar a própria alimentação, moradia, saúde e segurança em segundo plano.

“Ajudar os filhos não significa comprometer a própria velhice, por isso antes de ajudar alguém pergunte: depois dessa ajuda eu continuarei conseguindo pagar minhas próprias despesas? Se a resposta for não, aquela ajuda pode estar colocando duas gerações em dificuldade”, alertou o contador.

Outro ponto importante destacado pelo especialista foi o de que o idoso não deve tomar decisões financeiras importantes sozinho, porque às vezes, assumir a responsabilidade e decidir financeiramente desconhecendo quais são os possíveis impactos, podem trazer consequências negativas dentro do orçamento familiar da pessoa idosa. “Quando tiverem dificuldades para entender um contrato, empréstimo ou investimento, é fundamental ter alguém de confiança para ajudar a análise, porque a segurança financeira depois dos 80 anos depende do controle claro, dos limites definidos e de alguém com quem aquela pessoa possa contar”, orientou.

Marcelo Antônio disse, ainda, que saúde financeira na longevidade envolve quatro pilares práticos: ter uma renda minimamente previsível; controlar de perto as despesas; proteger-se contra imprevistos; e tomar decisões compatíveis com a própria realidade. “Saúde financeira não é simplesmente ter dinheiro, é ter a capacidade de tomar boas decisões sobre ele. No fim das contas, longevidade com a saúde financeira é preparar o seu dinheiro para acompanhar a sua vida, não se trata apenas de saber o quanto a gente tem no bolso hoje, trata-se de saber como transformar os recursos que temos em segurança, autonomia e qualidade de vida para todos os anos que ainda teremos pela frente”, finalizou o especialista em educação financeira, Marcelo Antonio.

 

 

Mente sã para um corpo sadio,

e uma para vida longeva também

                              

O melhor dos mundos seria chegar aos 80, 90 ou 100 anos com as saúdes física e mental em excelentes estados, não é mesmo? E se o corpo precisa de treinamento, o emocional também, principalmente para entender uma fase em que, no teatro da vida, o papel poderá deixar de ser o de um ator principal, para ser o de um coadjuvante, ou mesmo de um figurante. Mas, como alicerçar esse caminho? Como construí-lo em bases sólidas? Foi justamente para tentar descobrir os itens que edificam essa passagem, que o Pra Você Saber conversou com a psicóloga clínica especialista em ansiedade e transtornos de ansiedade, Érika Priscila da Conceição Chagas. Confira, a seguir, um pouco da nossa conversa:

Érika Chagas: saúde mental é não abrir mão de quem se é

PRA VOCÊ SABER - O segredo da longevidade não está apenas na medicina, ou seja, em medicamentos, mas também em questões psicológicas. Como a saúde mental pode ajudar no processo de envelhecimento?

ÉRIKA CHAGAS - Quando a gente fala em saúde mental na longevidade, penso muito na capacidade de continuar escolhendo a própria vida em si, e o que seria isso? Partindo do pressuposto de que todos nós precisamos saber tomar decisões com a liberdade de ser quem somos, sem medo, sem culpa, sem o julgamento de outras pessoas que acaba nos impondo viver aprisionados em um mundo de perspectivas, o envelhecimento não é apenas o que acontece no nosso corpo, ele também é a forma como lidamos com as mudanças, perdas e frustrações, e também com aquilo que já não faz mais sentido para cada momento da nossa vida. Quando a gente chega na idosidade, tem coisas que vão perdendo o sentido, como ações/comportamentos desnecessários, e os idosos sentem muito isso, principalmente quando perdem a função, digamos assim, na vida de outras pessoas, que é o que acaba acontecendo com muita frequência e facilidade.

PVS - É preciso se adaptar?

EC – SIM, é preciso saber se adaptar, flexibilizar e construir novos sentidos para nossa vida. Então, cuidar da saúde mental é aprender a reconhecer, principalmente, os pensamentos, os padrões que nos aprisionam e nos dar permissão para mudar, ser, ter, ir, fazer, alcançando os objetivos que a gente deseja, porque o envelhecer bem é poder dizer para gente: isso faz sentido para mim até aqui, mas eu posso escolher diferente daqui para frente. E a dificuldade de flexibilizar, de mudar essa rota, é um dos pontos que trazem maior adoecimento. Por isso, acredito muito que esse seja um dos pontos essenciais para se ter, ou manter, uma boa saúde mental e uma qualidade de vida, pois são justamente as ideias rígidas e a dificuldade de mudança, de adaptabilidade, de flexibilização, que aumentam a probabilidade de adoecimento, principalmente mental.

PVS - Qual o papel das relações sociais, familiares e afetivas para uma vida longeva e feliz?

EC - Elas são fundamentais, porque precisamos de vínculo, pertencimento, trocas..., mas existe uma diferença importante entre ter relações e depender delas para conseguir se sentir bem consigo mesmo. Uma relação saudável não deve exigir que o outro se abandone, que abra mão de quem é para continuar pertencendo. E ao longo da vida muitas pessoas aprendem a dizer sim o tempo todo, a serem permissivas para manter vínculos, para evitar conflitos. Suportam situações que fazem mal, que a colocam contra a própria necessidade, que colocam as necessidades dela sempre para depois, e as do outro sempre na frente. E isso também vemos como um custo emocional muito alto, principalmente para o idoso, que muitas vezes não tem a própria opinião considerada, ou começa a dizer sim para todo mundo, comportamento que também pode gerar um adoecimento. Por isso, acredito que envelhecer bem passa por uma construção de relações nas quais precisa existir afeto, mas também precisa existir autonomia de quem eu sou. E entender que posso amar alguém e continuar sendo responsável pelas minhas próprias escolhas; que posso respeitar uma opinião diferente sem precisar renunciar a minha; que posso ouvir opiniões diferentes, outras decisões, sem precisar me anular; que posso, inclusive, pertencer a essa família, a esse grupo, a esse lugar onde eu estou e onde vivo, sem precisar anular os meus valores ou os meus pensamentos são movimentos de preservação da saúde mental. A qualidade das relações é importante, mas a qualidade da relação que a pessoa estabelece consigo mesma é essencial.

PVS - É preciso ter propósito para envelhecer bem?

EC - Bom, acredito que propósito, em si, contribui para um envelhecimento bom, mas eu ampliaria esse conceito de propósito, porque ele em si não precisa ser uma grande missão, e a gente vê muito propósito como missão, como algo grande a ser cumprido. Mas ele pode ser algo que faça a pessoa levantar e continuar se movimentando em direção à própria vida, algo que a motive. Existe uma questão muito importante, que é a de que o propósito também pode mudar. Por isso, não preciso ter um propósito fixo, rígido, para uma vida inteira, eu posso hoje ter um propósito para minha vida, para construção dela com base no que estou vivendo hoje, e mais à frente mudar ou direcioná-lo de uma maneira diferente. E às vezes a pessoa passa décadas acreditando que precisa cumprir um determinado papel, seja o de excelente profissional, ou excelente mãe, ou correspondendo à expectativa da família em algum aspecto específico, e quando esse papel muda ela não sabe mais quem ela é. Então, envelhecer bem também exige se dar permissão para se reconstruir, para descobrir novos interesses, estabelecer novos objetivos e reconhecer que aquilo que fazia sentido antes, em uma fase da vida, não precisa obrigatoriamente continuar existindo.

PVS - Estamos preparados para viver mais?

EC - Acredito muito que estamos nos preparando muito para viver mais, só que ainda precisamos aprender a nos preparar para viver mais, sendo quem nós somos, e isso nos fará viver melhor. A longevidade não é apenas uma questão de quantidade de anos, é preciso pensar em autonomia, relações saudáveis, saúde emocional, capacidade de adaptação, planejamento, qualidade nas escolhas. Então, existe uma preparação que é muito pouco discutida, que é justamente a de aprender a não depender exclusivamente da validação de outras pessoas para poder tomar as próprias decisões, pois a vida muda, o corpo muda, os papéis mudam, os relacionamentos mudam, a profissão muda. Se eu não desenvolvo recursos internos para lidar com as mudanças, posso chegar a uma idade avançada tendo muitos anos vividos, mas pouca autonomia sobre minha própria vida, e isso faz com que a minha qualidade de vida diminua, com que aumente a probabilidade de adoecimento. Preparar-se para a longevidade é também aprender a sustentar quem eu sou diante das mudanças, me permitindo construir novas versões de mim, sem entender isso como um fracasso.

PVS - Desde quando, e de que maneira, a saúde mental deve ser trabalhada para que seja possível ter uma vida longeva?

EC - Quanto antes, melhor. A saúde mental precisa ser trabalhada o quanto antes, mas também não a colocaria apenas como uma preparação para a velhice, certo? Ah, estou entrando numa idade X, vou me aposentar, preciso me preparar. Não! A saúde mental é uma construção ao longo da vida, por isso precisamos, desde cedo, aprender a reconhecer emoções, a lidar com frustrações, a fazer escolhas, a estabelecer limites, a compreender que sentir desconforto nem sempre significa que estamos fazendo algo errado. Precisamos aprender que nem toda desaprovação precisa ser evitada, e que nem toda opinião contrária precisa determinar as nossas escolhas. Na minha perspectiva, desenvolver saúde mental é justamente ampliar a capacidade de fazer escolhas com consciência e assumir a responsabilidade por elas. Então, diria que a preparação para uma boa longevidade começa muito antes da velhice, é iniciada quando aprendemos a viver a nossa própria vida de forma profícua, construindo relações saudáveis, ao invés de apenas tentar corresponder à vida que esperam que a gente tenha. Quando você se escolhe, quando tem autonomia para tomar as próprias decisões e viver as suas escolhas, você tem uma boa saúde emocional e um protagonismo da própria vida que é incrível.

PVS – É tipo o “eu” do passado determinando o “eu” do futuro?

EC - Quando você é um pouco mais jovem e mantém em sua vida um mesmo padrão de comportamento, de fazer escolhas, de se escolher, de se colocar como prioridade nas relações, de estabelecer relações saudáveis, quando você chega no envelhecimento as pessoas já entenderam como é que você funciona e elas respeitam os seus limites, a sua forma de ver o mundo, a sua autonomia. E é isso. É importante que a gente realmente faça essa construção ao longo da vida para quando chegar ao momento em que a idade pesar, de fato, em nosso corpo, que a nossa mente esteja leve e tranquila sabendo que dentro das relações seremos respeitados.



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