
“A minha prancha carrega as cores do meu estado”
04/02/2026
Por Andréa Moura
Já se imaginou dentro do mar agitado, com ventos fortes e em meio a ondas gigantescas, com mais de 25 metros de altura? O que para você, e também para mim, parece ser o cenário perfeito de um pesadelo, para o sergipano Will Santana é como estar em casa, afinal de contas, ele é um dos principais nomes do planeta quando o assunto é surf em ondas gigantes. No final de janeiro ele foi destaque em jornais e sites de notícias nacionais e internacionais por ter encarado as enormes ondas “fabricadas” pela tempestade Ingrid, durante passagem pela costa europeia. A prática desse esporte é para quem tem técnica, coragem, preparação física e mental, e uma equipe de peso e completamente entrosada, afinal de contas, o atleta se lança em mar extremamente agitado e instável, com fortes correntes marítimas e de vento, portanto, condições que aumentam consideravelmente o risco à integridade física e à vida dos atletas. E para saber um pouco mais da história de vida e trajetória de Will, e como lida com situações de perigo, o Pra Você Saber bateu um papo com esse gigante. Confira:
PRA VOCÊ SABER - De família com dificuldades financeiras em Sergipe, para um dos maiores e mais importantes nomes do surf mundial de ondas gigantes. Como você define esse fenômeno chamado Willyam Santana, ou melhor, Will Santana?
WILL SANTANA - Sou a prova viva de que a origem não limita o destino. Vim de uma família simples em Sergipe e aprendi a transformar dificuldade em combustível, medo em foco e sonho em disciplina. Mais do que um surfista de ondas gigantes, eu represento resiliência, fé, trabalho duro e a coragem de enfrentar aquilo que poucos ousam. O verdadeiro “fenômeno” não está apenas no tamanho das ondas que eu surfo, mas na grandeza da trajetória que construí dentro do esporte.
PVS - Se você pudesse voltar no tempo, na época quando você ainda morava no Marcos Freire, o que você faria diferente?
WS - Se eu pudesse voltar no tempo para mudar alguma coisa eu teria focado mais nos meus estudos — principalmente em aprender outras línguas, como inglês e espanhol. Hoje, não falar essas línguas com fluência acaba me limitando um pouco na minha carreira. Então, se eu pudesse voltar à minha infância, sem dúvida essa seria uma das principais coisas que eu mudaria.
PVS - Quais os sonhos que você tinha, lá atrás, antes mesmo de conhecer o surf, que já conseguiu realizar por causa da carreira?
Sou profundamente grato. De verdade. Grato por viver hoje coisas que, quando eu era criança, pareciam tão distantes de mim. Mesmo assim, eu nunca deixei de acreditar. Muitos desses sonhos já se tornaram realidade. Um deles sempre foi viajar o mundo, conhecer lugares que eu só via em fotos ou imaginava na minha cabeça. Hoje, viajar faz parte da minha vida. Já estive em países que um dia foram apenas sonho, como a Indonésia, o Havaí, passei por lugares incríveis da Europa, como a Espanha, e também vivi experiências marcantes na Califórnia, nos Estados Unidos, entre tantos outros destinos. Olhar pra trás e ver onde cheguei só reforça uma coisa: acreditar sempre vale a pena.
PVS - Fale um pouco sobre o Will criança. O que você gostava de fazer, como era sua relação com sua família, com os amigos da escola e do local onde residia?
Quando eu era criança passava muito tempo no sítio da minha avó, em São Cristóvão. Aquilo ali era o meu mundo. Eu amava estar no mato, caçar passarinho, brincar sem hora pra acabar. Andava de skate, jogava futebol com meus primos, brincava de vôlei… Essa foi, basicamente, a minha infância. Todo final de semana e todas as férias escolares eu estava lá, vivendo isso intensamente. Na escola eu era bem danado — danado pra caramba mesmo. Nunca fui fã de estudar, não gostava muito de rotina nem de ficar fazendo todos os deveres certinhos. Mas, curiosamente, sempre tive notas boas. Na hora da aula eu prestava atenção de verdade, entendia os assuntos e, quando chegava a prova, me dava bem. Acabava tirando boas notas sem muito esforço. Acho que desde cedo eu já era assim: inquieto, curioso, livre… mas atento quando realmente importava.
PVS - Quando foi a primeira vez que surfou uma onda gigante, como e através de quem chegou a esse momento?
A primeira vez que encarei uma onda gigante foi no México, em Puerto Escondido — um lugar lindo, mas extremamente intimidador. É uma onda que impõe respeito de verdade. Quando cheguei lá o clima era pesado: dois atletas haviam perdido a vida recentemente, um dia antes e outro praticamente na minha chegada. As condições eram muito perigosas. Diferente de outros picos de ondas gigantes, ali quase não existe estrutura de segurança. Não há jet skis, o suporte é mínimo, e quando algo dá errado o tempo de reação é curto. Qualquer erro pode custar muito caro.
Tudo isso cria uma pressão psicológica enorme antes mesmo de entrar no mar. Mesmo assim, com tudo isso acontecendo ao redor, eu entrei num mar realmente gigante e extremamente desafiador. Foi um daqueles momentos em que medo e foco caminham juntos. E naquele swell acabei vivendo um feito histórico: surfei uma onda muito grande que ganhou destaque nas mídias, com repercussão nacional. A partir dali muita coisa mudou. Aquela onda abriu portas, trouxe visibilidade e me colocou de vez no caminho do surfe de ondas gigantes. Era um sonho antigo, que por muito tempo parecia distante — principalmente por causa das dificuldades financeiras, já que é um esporte caro e de difícil acesso. Puerto Escondido foi medo, pressão e risco… mas também foi o começo de tudo.

PVS - A equipe da qual faz parte é, literalmente, uma equipe de peso, composta pelos surfistas Lucas Chumbo, Pedro Scooby e Lucas Fink. Fale um pouco sobre a relação de vocês, dentro e fora da água.
A minha relação com eles é muito boa. Eu confio muito na minha equipe, principalmente quando o mar está gigante lá dentro d’água. A gente está sempre dando o melhor e fazendo o melhor um pelo outro. Aprendi muita coisa ao longo do caminho, principalmente com o Lucas Chumbo e com o Pedro Scooby. Eu e o Lucas Fink somos os mais novos da equipe e começamos praticamente juntos, trilhando esse caminho no mesmo ano. Isso criou uma conexão muito forte entre nós. E quando não estamos dentro d’água surfando, estamos sempre juntos, seja num churrasco, num jantar ou reunidos com a família. Existe amizade, parceria e união de verdade.
PVS - Mas além dos surfistas, a equipe conta com mais gente, não é mesmo? Conta para nós sobre essa dinâmica.
Além da gente que está diretamente na água — surfistas e pilotos — a equipe de ondas gigantes envolve muito mais pessoas e funções fundamentais. Temos o segundo resgate, que é o safety, responsável pela nossa segurança quando estamos surfando um mar realmente gigante. Esse suporte faz toda a diferença em situações extremas. No cliff, contamos com o spotter, que é a pessoa que fica observando tudo de cima. Ele tem uma visão privilegiada de toda a área, acompanha cada atleta dentro d’água e passa informações em tempo real pelo rádio para quem está pilotando os jet skis. Em um mar gigante, muitas vezes não conseguimos enxergar o que está acontecendo lá fora. Quando um atleta cai ou acontece qualquer tipo de acidente, o spotter é essencial — ele consegue ver tudo e orientar a equipe com precisão, o que pode ser decisivo. Também temos o filmmaker, que está ali registrando cada momento, cada onda e cada detalhe do trabalho da equipe. Resumindo, é um trabalho totalmente em equipe: surfista, piloto, spotter, safety, filmmaker. Todo mundo conectado, confiando um no outro e dando o máximo para que tudo aconteça da forma mais segura e eficiente possível.
PVS - Em quais locais do planeta você já surfou ondas gigantes; qual o que mais te impressionou, e por quê?
Eu praticamente já surfei nos principais picos de ondas gigantes do mundo. Estamos falando das maiores ondas do planeta — lugares que exigem respeito absoluto e colocam qualquer surfista à prova. Sem dúvida nenhuma, a maior onda para mim é Nazaré. É a onda que realmente assusta. Principalmente em condições extremas, no meio de tempestades, quando tudo fica fora de controle. Nazaré não perdoa. Ela impõe medo, silêncio e humildade. Já surfei Jaws (Pe?ahi), na ilha de Maui, no Havaí — uma onda linda, uma direita perfeita, que quebra sobre fundo de pedra. Um lugar de extrema beleza, mas que exige precisão e respeito em cada drop.
Na Califórnia, encarei Mavericks, uma onda fria, pesada, que também quebra no fundo de pedra. Além disso, é um pico onde a presença de tubarões-brancos e focas é constante. O medo está sempre ali, pairando no ar. Surfei também na Espanha, na Galícia, uma esquerda tubular, muito linda, muito intensa, que quebra no fundo de pedra e entrega sessões memoráveis. Passei ainda pelo México. Mas, sem dúvida, o lugar que mais me marcou foi Nazaré — especialmente no meu primeiro swell gigante. Eu nunca imaginei, na minha vida, que existia uma onda daquele tamanho. Algo que parece um prédio em movimento. Quando vi aquilo pela primeira vez foi impossível não me emocionar. Era felicidade, medo, coragem e humildade tudo ao mesmo tempo. Um mix de sentimentos e adrenalina que não dá para explicar com palavras. Você sente que é pequeno. Você entende o seu lugar. E, ao mesmo tempo, sente que foi escolhido para estar ali.
"Eu nunca imaginei, na minha vida,que existia uma onda daquele tamanho. Algo que parece um prédio em movimento. Quando vi aquilo pela primeira vez foi impossível não me emocionar. Era felicidade, medo, coragem e humildade tudo ao mesmo tempo. Um mix de sentimentos e adrenalina que não dá para explicar com palavras. Você sente que é pequeno. Você entende o seu lugar. E, ao mesmo tempo, sente que foi escolhido para estar ali"
PVS - Como é a sua rotina de preparação para as ondas gigantes?
Minha rotina de preparação para ondas gigantes é baseada em manter o equilíbrio físico, psicológico e espiritual — esses são os principais pilares do meu trabalho. A parte física faz parte do meu dia a dia: treino quase diariamente. Porém, quando o mar está grande e passo muitas horas na água surfando, acabo priorizando o surf e respeito o corpo, tirando um ou dois dias de descanso, quando necessário. Também mantenho acompanhamento psicológico, o que faz total diferença. O surfe de ondas gigantes é um esporte de altíssimo risco, onde a vida está constantemente em jogo. Para sustentar uma boa performance e, ao mesmo tempo, lidar mentalmente com esse nível de pressão, o preparo psicológico é fundamental.
PVS - A temporada de ondas gigantes em Nazaré é de outubro a março, tempo em que você está 100% focado no local. E após a temporada, como é sua vida? O que costuma fazer? Tem hobbies? Relacionamento amoroso?
Durante a temporada em Nazaré eu fico extremamente focado. Faço poucas coisas além do surfe, me desligo do mundo e das distrações, e concentro toda a minha energia em superar os meus próprios limites. O objetivo é sempre evoluir, buscar o meu melhor desempenho e, quem sabe, bater um recorde e entrar para o Guinness entre os surfistas que já surfaram a maior onda do mundo. Esse é, sem dúvida, o meu foco principal durante esse período. Quando a temporada de Nazaré termina, eu volto para o Brasil. Procuro ir a Sergipe para estar com minha família e amigos, recarregar as energias, e depois retomo minha rotina de treinos, já focado nas competições de ondas gigantes que acontecem no Brasil — no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, em Niterói e em Itacoatiara. Esses são os meus principais focos fora da temporada europeia. E, sim, meu coração tem dona. Estou namorando. Ainda não falei muito sobre isso nem expus publicamente, mas estou comprometido. Inclusive, passei o Ano Novo com a família dela.
PVS - Surfar ondas gigantes não é um esporte barato, como você faz para se manter?
O surf de ondas gigantes definitivamente não é um esporte barato — ele é conhecido como a Fórmula 1 do surf. O início da minha carreira foi muito difícil. Não depende apenas da prancha: existe o jet ski, o piloto, a equipe, manutenção, combustível… tudo isso gera um custo altíssimo. Não é só o preço de surfar uma onda, mas o custo de manter toda uma estrutura funcionando. Teve momentos em que parecia impossível, como se eu nunca fosse conseguir seguir em frente nesse esporte. Mas, com muito trabalho, fé e com as pessoas certas se aproximando ao longo do caminho, as coisas começaram a acontecer de uma forma que eu nem sei explicar. Hoje, consigo me manter no esporte. Minha carreira está consolidada, e com o apoio dos meus patrocinadores, propagandas e alguns trabalhos nas redes sociais e projetos ousados, eu mantendo esse sonho vivo.

PVS - Além de serem conhecidos pelo esporte que praticam, você e os integrantes da equipe também ficaram ainda mais conhecidos no Brasil pelo serviço humanitário de resgate às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Conta um pouco como foi esse trabalho, o que você viu que ainda não conseguiu esquecer, e o que mudou em seu modo de ver o mundo depois disso.
O que aconteceu no Rio Grande do Sul foi algo extremamente forte — algo que eu nunca vou esquecer. Não se tratava apenas de ajudar pessoas, mas de salvar vidas. O conhecimento que a gente tinha com o jet ski, com resgate em situações extremas fez toda a diferença. Mas existem cenas que ficam marcadas para sempre. Uma delas foi salvar uma criança que estava dentro de uma caixa d’água, enquanto os pais empurravam para que ela não afundasse. Quando conseguimos tirá-los daquela situação a mãe me abraçou e começou a chorar desesperadamente. Aquilo me tocou profundamente.
Teve também o resgate de uma família que estava ilhada, em um local muito crítico, com um cheiro forte de coisas podres, um ambiente completamente insalubre. Eles não sabiam nadar. Segui todo o procedimento correto: coletes, calma, orientação, passo a passo. Prometi que ninguém ficaria para trás. Mesmo assim, foi um dos momentos mais tensos da minha vida. Eles não queriam sair um por um no jet, só aceitavam se todos fossem juntos. Consegui convencê-los, mas o que eu mais temia quase aconteceu: o barco acabou quase virando. Consegui retirar cada pessoa com o jet, e quando tirei a última, o barco acabou naufragando. Quando finalmente coloquei todos em um barco maior, em segurança, o pai de uma das vítimas olhou para mim e disse: “Se minha filha morresse, a culpa seria sua.” Aquilo foi um choque enorme para mim. Graças a Deus, isso não aconteceu. Mas aquele momento ficou gravado na minha mente.
Foram muitas experiências que me marcaram — tanto pelo lado positivo de ter conseguido salvar vidas, quanto pelo choque de realidade que enfrentei ali. No fim das contas, tudo o que fizemos foi acompanhado pelas autoridades, sempre tentando agir da forma mais correta possível. Sem dúvida, demos o nosso melhor pela sociedade. E eu carrego isso comigo até hoje.
"A minha prancha carrega as cores do meu estado. O meu coração carrega o orgulho de ser sergipano. Esse é o meu propósito"
PVS - Em 2025 você teve, pelo menos, dois grandes sustos relacionados à sua profissão. O primeiro foi em fevereiro, quando você foi “engolido” por uma onda gigante, e o segundo, no início de dezembro, o resgate ao surfista Carlos Burle. Como esses dois episódios te marcaram e o que mudou em você depois deles?
Sem dúvida, o surf de ondas gigantes é um esporte extremamente perigoso. Por mais que eu faça um trabalho constante para manter a calma — inclusive com acompanhamento psicológico — existem situações que fogem de qualquer controle e são difíceis até de explicar. O que aconteceu comigo em fevereiro foi algo que eu só consigo definir como um milagre. Eu acredito, de verdade, que se não fosse a mão de Deus eu não estaria vivo hoje. Estar numa situação extrema, cair por cima de um jet ski e não ser atingido por uma máquina que pesa mais de meia tonelada é algo inexplicável. Quando eu vi as imagens depois fiquei em choque. As cenas são muito fortes, e é difícil acreditar que não aconteceu nada comigo. Para mim, isso foi um milagre.
Já o que aconteceu recentemente, em dezembro, com o Carlos Burle, é um tipo de situação que infelizmente acontece com mais frequência no nosso esporte. Às vezes, o surfista faz uma linha um pouco mais arriscada, e acaba sendo pego pela onda, e acaba ficando tempo demais embaixo d’água. Quando ele voltou à superfície ainda tomou mais algumas ondas, o que agravou muito a situação. O Burle estava num estado bem delicado, quase apagando. Fui acionado pelo rádio e, no momento em que recebi o chamado, desci imediatamente. Seguimos todo o nosso protocolo de segurança. Cada segundo ali faz diferença. Conseguimos levá-lo até a areia, onde, junto com os salva-vidas, fizemos todo o procedimento de primeiros socorros. Ele não chegou a apagar completamente, mas esteve muito próximo disso. Felizmente, conseguimos reanimá-lo. Na hora, tudo é extremamente tenso. Por mais que a gente treine, se prepare e esteja pronto para esse tipo de situação, no momento do fato tudo acontece muito rápido. É algo delicado, e manter a calma é o que realmente faz a diferença entre a vida e a morte.

PVS - Como foi o ano de 2025, e quais os planos para 2026?
2025 foi, sem dúvida, um ano de muita evolução para mim. Cresci tanto na minha carreira profissional quanto na minha vida pessoal. Sou muito grato e feliz por tudo o que aconteceu ao longo desse ano — cada desafio, cada conquista e cada aprendizado. Agora, meu olhar está totalmente voltado para 2026. Quero focar ainda mais e fazer as coisas acontecerem em um nível ainda maior. Seguirei com o mesmo comprometimento e dedicação dentro d’água, como atleta e surfista, mas também quero expandir meu foco fora d’água. Quando falo em evoluir fora d’água falo em estudar mais, desenvolver projetos que agreguem valor à minha carreira, aprender novas línguas para me comunicar melhor com pessoas de diferentes países e fortalecer conexões e negócios ligados ao que eu faço. Meu objetivo para 2026 é claro: abrir portas ao redor do mundo, criar novas oportunidades e seguir evoluindo como atleta, profissional e ser humano.
PVS - Qual o legado que você pretende deixar?
Essa é uma pergunta que me toca profundamente — porque hoje ela representa o meu maior propósito. Mais do que títulos, ondas ou reconhecimento, o que realmente me move é o legado que eu posso deixar para as pessoas. Para o mundo, sim, mas principalmente para o lugar onde tudo começou: Sergipe. Eu quero que as pessoas entendam que é possível chegar onde sempre sonharam, mesmo quando tudo parece improvável. Eu sou a prova viva disso. Vim de uma realidade simples, enfrentei dificuldades, e ainda assim consegui romper fronteiras e levar o nome do meu estado para o mundo através do surfe de ondas gigantes.
Hoje, meu grande sonho é transformar essa trajetória em algo maior que eu. Sonho em criar um projeto social ligado ao esporte, junto com um museu que conte a história do surfe de Sergipe — uma história rica, forte e muitas vezes adormecida. Existem pessoas incríveis, momentos marcantes e uma cultura no surfe sergipano que já foi reconhecida nacionalmente e merece ser valorizada, preservada e contada. Acredito que fui o primeiro surfista do meu estado a alcançar reconhecimento global no surfe, e quero usar isso como ferramenta de inspiração. Não para exaltar uma pessoa, mas para mostrar caminhos. Para que crianças e jovens olhem e pensem: “Se ele conseguiu, eu também posso.”
PVS - Fique à vontade para falar sobre algo que julgue muito importante falar, mas sobre o qual acabei não perguntando.
Durante muitos anos eu me senti um pouco apagado pelo meu próprio estado, Sergipe. Se não fossem os próprios atletas e as pessoas sergipanas me escrevendo, dizendo “acredita, Sergipe tem que te apoiar, você representa o nosso estado pelo mundo”, talvez esse sentimento tivesse sido ainda mais pesado. Por muito tempo, me senti esquecido. E isso dói. Deixa a gente triste. Mas eu sempre fui uma pessoa humilde e consciente do meu propósito. Sempre busquei evoluir — não só como atleta, mas como ser humano. Nunca deixei isso virar mágoa, nem permitir que paralisasse meus sonhos. Meu maior sonho é ser mais reconhecido pelo meu estado, mostrar que mesmo vindo do menor estado do Brasil, é possível ir além, romper limites e alcançar o mundo. Mas isso eu não consigo fazer sozinho. Preciso da ajuda de vocês, sergipanos. Preciso da força do povo, das empresas, dos governantes. Preciso me unir ao meu estado. Da minha parte, eu faço questão de representar Sergipe em todas as entrevistas, em todos os campeonatos, em todos os lugares do mundo — nacionais e internacionais. A minha prancha carrega as cores do meu estado. O meu coração carrega o orgulho de ser sergipano. Esse é o meu propósito. E ele só faz sentido junto com vocês.
Fotos: Arquivo pessoal de Will Santana.


